“Todos disseram que eu imaginei a dor. Que eu estava quebrado.”
Clara sentiu algo queimando dentro de si.
“Você não estava quebrado”, disse ela, embora ele ainda não pudesse ouvi-la. “Você estava sofrendo. Não é a mesma coisa.”
Ela cuidou dele por dias. Ela limpou o ferimento, trocou os curativos e preparou remédios com mel e ervas. E, à medida que sua orelha cicatrizava, algo começou a mudar dentro dele. Primeiro, ele conseguiu distinguir vibrações. Depois, alguns sons. Mais tarde, numa tarde na cozinha, Clara deixou cair uma colher e Elias ergueu a cabeça bruscamente.
Ele a tinha ouvido.
“Você me ouviu?”, perguntou Clara, prendendo a respiração.
Elias engoliu em seco. Sua voz saiu rouca, como se tivesse sido enterrada por anos.
“Sim.”
Clara soltou uma risada abafada que se transformou em lágrimas no mesmo instante.
Sua recuperação foi lenta, mas real. Eles praticavam palavras à noite. Clara lia em voz alta perto da lareira e ele repetia desajeitadamente, determinado como uma criança teimosa e corajosa. O nome dela foi uma das primeiras palavras que ele quis pronunciar corretamente.
“Cla…ra.”
Quando ele finalmente conseguiu, ela sentiu um nó na garganta.
“De novo.”
“Clara”, ele repetiu, com mais firmeza, e então acrescentou, quase como se mal pudesse acreditar: “Minha esposa”.
Naquela noite, eles se beijaram de verdade pela primeira vez. Não foi um beijo perfeito. Era trêmulo, novo, cheio de tudo aquilo que não tinham conseguido dizer um ao outro. E depois disso, o caderno deixou de ser uma barreira e se tornou apenas um auxílio. Algo inesperado começava a florescer entre eles.
Um amor difícil.
Amor verdadeiro.
Mas a paz é efêmera quando construída sobre a humilhação alheia.
Um mês depois, Clara encontrou um bilhete amassado no celeiro, escondido entre as ferramentas. Ela reconheceu imediatamente a caligrafia do irmão, Tomás.
“Eu te disse que ela não ousaria se casar. Perdi cinquenta, mas ainda posso recuperá-los.”
