“Preciso que você me ouça”, eu disse. “Não estarei disponível para isso. Não porque eu não te ame. Mas porque passei tempo demais sendo a rede de segurança para decisões que eu nunca tomei. Mamãe tomou a decisão de vender a casa. Foi uma decisão dela, livre e adulta. Você tomou as decisões que te levaram a dever esse dinheiro. Elas também foram suas. Nenhuma dessas decisões me incluiu. Não serei a consequência delas.”
“É fácil dizer isso quando você sempre teve tudo resolvido.”
Eu ri. Não consegui evitar. Uma risada curta e sem humor.
“Tudo resolvido? Gustavo, eu trabalhei doze horas por dia durante dez anos para ter aquele apartamento. Sozinha.” Sem ninguém me pagar uma dívida. Sem a mamãe vender nada para mim.
“Você sempre foi a favorita do papai”, ela disse, e eu soube que tínhamos chegado ao mesmo lugar de sempre, aquele lugar sombrio para onde Gustavo ia quando ficava sem argumentos.
“Boa noite”, respondi e desliguei.
Minha mãe ligou às 00h30.
Com ela era diferente. Com ela sempre era diferente, porque Cecilia não usava a agressividade de Gustavo, mas algo mais difícil de evitar: a tristeza. Aquela tristeza suave e constante que fazia com que dizer não a ela sempre parecesse um ato de crueldade.
“Querida, eu não entendo o que aconteceu. Eu só pedi um tempo, não é para sempre.”
“Mãe, eu não vendi o apartamento.”
Pausa.
“O quê?”
“Eu não vendi nada. Eu disse isso para você entender alguma coisa.”
Outra pausa, mais uma pausa…
rga.
“Para me assustar?”
