“Acabei de vender o meu também.”
Enviei sem pensar muito. Depois, abri meu laptop e procurei voos.
Puerto Vallarta. Só ida. Partida às 7h. Só restava um lugar.
Reservei.
Quinze minutos depois, o telefone tocou. Era o Gustavo.
Deixei tocar.
Ele ligou de novo. Deixei tocar de novo.
Na terceira tentativa, atendi, não porque quisesse falar com ele, mas porque sabia que, se não atendesse, ele continuaria ligando até as 3h da manhã.
“O que você fez?” foi a primeira coisa que ele disse. Sem alô, sem como vai. Direto ao ponto, como sempre, com aquela voz de quem acha que o mundo lhe deve uma explicação permanente.
“Vendi meu apartamento”, respondi o mais calmamente que consegui.
“Mamãe disse que você avisou que eles não podiam vir.”
“Mamãe interpretou como quis.”
“Andrea, nós somos sua família. Estamos numa situação difícil e precisamos—”
“Gustavo.” Eu o interrompi, e algo no meu tom o fez parar, porque não era a voz que ele conhecia, aquela voz que cede, explica e pede perdão. “Qual o valor da dívida?”
Silêncio.
“Quanto?”, repeti.
“Oitenta e poucos mil.”
“Oitenta e poucos mil?”
“O negócio teve complicações que eu não previ. O mercado estava—”
“Gustavo. A casa da mamãe valia duzentos e vinte mil. Onde está o resto?”
Outro silêncio. Este mais longo.
“Há outros compromissos.”
Fechei os olhos. Respirei fundo.
“Há outros compromissos”, repeti baixinho, não para ele, mas para mim mesma, para que a frase tivesse o peso real que merecia.
Trinta e cinco anos como a filha responsável. Trinta e cinco anos sendo aquela que estudava, aquela que trabalhava, aquela que nunca pedia nada, aquela que resolvia os problemas em silêncio enquanto Gustavo os criava aos berros e minha mãe os chamava de dificuldades com aquela ternura seletiva que alguns pais têm pelos filhos que lhes causam mais sofrimento.
